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ESPAÇOS PARA UM CRESCIMENTO EM SAÙDE



Crescer num ambiente onde respiramos carinho, dedicação e afeto é a base fundamental para que, na fase adulta, possamos sentir confiança e estabilidade com os nossos próprios pés.


A perceção humana da realidade tem muitas nuances e formas de compreensão. Sentimo-la através das relações e das ligações que criamos com o mundo exterior e interior. Quando vivemos num mesmo espaço todos os dias, construímos uma afeição pelo lugar que nos rodeia, e este passa a fazer parte da nossa história pessoal. Sobretudo na infância, essa ligação pode ser mais intensa, pois tudo é uma nova descoberta.


Sentirmo-nos próximos da alma de um espaço, integrados com o que nos circunda, permite ao corpo relaxar e deixar fluir a energia vital — essencial para que o crescimento aconteça sem esforço. A alma de cada lugar é única, mas a intenção humana presente no ato de projetar deveria ser sempre a mesma: apoiar, sustentar e proteger o desenvolvimento.


O Feng Shui ajuda-nos a ter em atenção alguns pontos importantes durante a conceção dos espaços e, em especial, no âmbito da educação, mantém-nos em ligação com as leis da natureza, conduzindo a uma melhor aprendizagem e ao bem-estar de alunos e educadores.

Sendo uma antiga prática chinesa que organiza a disposição dos espaços para estimular o fluxo de energia benéfica (chamada “qi” ou “chi”), o Feng Shui baseia-se em princípios como o equilíbrio entre expansão e contração (yin e yang), a ligação à natureza e a disposição harmoniosa do mobiliário. Neste contexto, algumas pedagogias refletem sobre os princípios do Feng Shui, integrando conceitos de harmonia, equilíbrio e ligação à natureza nos seus ambientes educativos.

Nas escolas associadas à Pedagogia Waldorf de Rudolf Steiner, à Pedagogia Montessori de Maria Montessori, ao Movimento Reggio Emilia de Loris Malaguzzi ou à Forest School de Sarah Blackwell, o ambiente é também educador: os espaços são pensados para o bem-estar e a aprendizagem, estruturados de forma a estabelecer equilíbrio entre expansão e contração energética. A organização interior, a interação com a natureza exterior, as cores das paredes (incluindo o teto), os materiais didáticos e a iluminação — tudo é concebido numa visão de ligação entre o físico e o espiritual, entre o yin e o yang.



Poderei então apresentar alguns pontos específicos de conexão com a Pedagogia Waldorf, caminho que escolhemos para a nossa filha desde os seus 3 anos. Esta vivência direta permite-me reconhecer, de forma clara, como muitos dos princípios deste modelo educativo dialogam naturalmente com os fundamentos do Feng Shui. Na infância as escolas Waldorf, de facto, procuram criar ambientes de inspiração, onde as paredes são pintadas com veladuras em suaves tons de rosa, evocando a cor que o bebé percebia no interior da placenta. Ainda no ventre materno, o pequeno ser via o mundo envolto em delicadas nuances de fúcsia, acolhendo-o com calma e harmonia desde os primeiros momentos de vida. No Feng Shui, a cor-de-rosa está associada à direção sudoeste e à fase do chi Solo/Terra — especificamente à Mãe Terra — bem como às relações de casamento e à ligação com a mãe.

A aplicação fluida da cor reflete a fluidez da energia da água e a natural inclinação para a ligação com a sabedoria.

Outro elemento que caracteriza o ambiente é a presença de cortinas de algodão colorido sobre o quadro e em todas as janelas. A cortina representa a fase do chi terra, e a presença marcante desse elemento liga-nos às raízes e, neste contexto, desperta o sentimento de proteção.

O uso da madeira, presente em brinquedos, mobiliário e decorações, é um outro elemento emblemático. Tal como no Feng Shui, onde o elemento madeira simboliza crescimento, vitalidade e criatividade, a sua presença nas escolas Waldorf promove uma experiência sensorial rica, estimulando a imaginação, a coordenação motora e a autonomia da criança.

Podem ainda ser criados armários embutidos nos cantos, para suavizar o perímetro da sala, cujas portas serão em madeira natural. Desta forma, uma sala quadrada transforma-se num octógono — figura sagrada que simboliza o equilíbrio universal e a correspondência entre todas as direções e áreas da vida.

Ambos os sistemas reconhecem que a madeira, com a sua textura, calor e organicidade, é capaz de criar um ambiente de harmonia e energia positiva, favorecendo o bem-estar e o desenvolvimento natural.


Para além dos materiais que nos circundam, a colocação do mobiliário é igualmente fundamental. Num ambiente escolar convivem pessoas de várias idades, com necessidades distintas, e é essencial garantir que todas se sintam seguras e equilibradas.

Quando observamos as salas destinadas aos adultos — como a direção, a secretaria ou os gabinetes pedagógicos — surge uma regra básica do Feng Shui: as costas devem estar protegidas. Uma secretária encostada a uma parede sólida oferece suporte e estabilidade energética, permitindo decisões mais claras, comunicação mais fluida e um trabalho mais focado. Pelo contrário, trabalhar com as costas expostas à porta ou a zonas de passagem gera insegurança inconsciente, dispersão e cansaço. Outro aspeto menos falado e extremamente importante, refere-se ao posicionamento da documentação relevante para a escola. Documentos guardados de forma acessível, organizada e sobretudo colocados em locais adequados respeitivamente ao fluxo energético do espaço, contribui para apoiar a criação de relações saudáveis entre as diferentes áreas — direção, educação e responsáveis pela educação. Do mesmo modo, olhando para o fluxo energético anual, o ambiente escolar também pode considerar a aplicação das chamadas “curas anuais” previstas no Feng Shui Clássico — Xuan Kong da Gua: um sistema avançado do Feng Shui ligado ao tempo, aos hexagramas do I Ching e à relação entre direção, energias celestes e terrestre. Nesse âmbito, cada direção revela um diálogo subtil entre tempo e espaço, permitindo que a energia do ambiente seja ajustada de acordo com os ciclos naturais para promover bem-estar e evolução. Esse sistema de curas anuais pode ser comparado à acupuntura no corpo, pois utiliza objetos de cura e de ativação do qi colocados em ponto especificos da casa; na maioria dos casos, para potenciar o fluxo, recorre-se à ativadores energéticos, como a fonte de água. Considero importante orientar com precisão a utilização deste instrumento particular, pois em diversas situações, é aplicado sem critérios adequados, prejudicando o efeito no ambiente. A fonte de água acrescenta força vital irradiando potência útil a partir do vertedouro e alcançando uma área proporcional ao seu tamanho. Na harmonização de Casas de Infância ou Creches, temos que ter em consideração alguns aspectos que fazem parte desse âmbito específico. Acima de tudo, é fundamental ter em consideração que nessa fase a crianças “pensa” e “compreende” o mundo através do corpo e por isso, não distingue plenamente o eu do ambiente. Junto com esse aspecto, temos que ter em conta que o lugar que vivenciam está a ser partilhado com outras crianças. O desenvolvimento deles, no entanto, ainda não está totalmente preparado para essa convivência, e por isso, a dinâmica cotidiana entre elas às vezes pode tornar-se conflituosa. Na perspetiva de criar ambientes mais calmos, de facto, as escolas geralmente possuem múltiplas salas de grupo, que são fechadas umas das outras, criando espaços distintos para diferentes faixas etárias. Colocar o ativador de àgua numa só determinada sala de crianças, concentraria um excesso energético nesse singulo espaço, dificultando a circulação pelo ambiente como um todo e criando lacunas e bloqueios em outras áreas. Além disso, sobretudo quando estamos a curar uma escola com muitas crianças, temos que relembrar também que o grupo pode ter uma ligação emocional baixa e um enraizamento inicial. Isso ainda mais afasta a hipótese do uso de uma fonte de água nos espaços usados pelas crianças. No caso do grupo ser pequeno (máximo 5 crianças) e com uma ligação emocional forte, avaliara-se a colocação do ativador no àrea exterior ou na sala da equipa pedagógica, sempre considerando que o fluxo energetico seja favorável a isso.


As crianças percebem o mundo de todos os outros sentidos, de forma apurada, revelando surpreendentes capacidades de perceção espacial, acompanhadas de uma sensibilidade natural. Portanto, um ambiente de aprendizagem eficaz deve ser acolhedor e simples, capaz de fazer a criança sentir-se à vontade, oferecendo um espaço que transmita sensações de segurança, alegria e curiosidade. Esse sentimento é transmitido através do contacto com ambientes equilibrados entre as características yang e yin: espaços amplos, luminosos e de livre trânsito, cores geralmente luminosas, materiais predominantemente em madeira e também recantos aconlhedores com tecidos suaves, uma variedade espontânea de brinquedos, detalhes em cores profundas e objetos macios. O mais difícil, por vezes, é encontrar o equilíbrio em cada espaço, considerando as características próprias de cada edifício.

Tal como o Feng Shui procura fazer fluir livremente o qi (energia vital) num espaço, também as pedagogias que valorizam o desenvolvimento integral da criança procuram criar ambientes que promovam vitalidade e serenidade.

Nesse sentido, a educação e o Feng Shui encontram-se num objetivo comum: construir lugares onde a beleza, a energia e a consciência se tornem pilares fundamentais da aprendizagem.


Ao criar uma experiência harmoniosa, damos espaço para que a essência dos seres humanos — ainda em fase de crescimento — possa expressar-se na sua totalidade, em consonância com o todo.





 
 
 

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